"Isso pode parecer uma pretensão audaciosa, mas não me desculpo por ela." (Popper, Conhecimento Objetivo. Introdução)
Durkheim, apesar de ter se formado em Direito e Economia, não se centrou no estudo da sociologia.
Digo isso, pois, a sua época, o termo ainda não estava cunhado. Coube ao próprio Durkheim - ao contrário do que um certo senso dito "comum" dentre os acadêmicos (se é que assim podemos chamá-los), afirmando que foi Auguste Comte o criador do termo.
Ora, é claro que Durkheim se centrou nessa nova ciência que estava sendo criada e que muito ganhou com sua contribuição. Mas a tarefa que tomou lugar central em seus estudos, em suas observações, problematizações etc, foi uma: o questionamento. A Filosofia.
Muito se diz sobre a tal Filosofia, em cursos e aulas que fazem uso a um já "cliché": apresentam o termo (filo + sofia = amigo da sabedoria); um pouco de sua História clássica (e cá pra nós, bem pouco): Tales de Mileto, Gregos, sofistas e blá, blá, blá; e nos fazem aceitar, sem maiores explicações, que seu objeto (ou pelo menos a sua atuação) é o questionamento. De quê? De tudo. Lindo. Todos voltam para sua casa sentindo-se uns Heráclitos, Parmênides, Sófocles, Demócritos e tantos outros.
Mas veja: Durkheim, ao realizar sua tarefa, questionou o quê? E com quais pressupostos?
Ora, a resposta é muito simples: ele se utilizou daquilo que estudou, o Direito e a Economia, ambos ciências que possuem como objeto, em última análise, a sociedade e suas produções (normativas e "financeiras").
A impressão que nos dá essa organização passada pelos nossos professores, numa análise mais profunda, é que a filosofia não é muito, não é ampla. É pouco. Deleuze afirma:
A resposta o próprio Deleuze nos dá, num ato de pura benevolência:"Parto do princípio de que eu faço filosofia e vocês fazem cinema. Admitido isso, seria muito fácil dizer que a filosofia, estando pronta para refletir sobre qualquer coisa, por que não refletiria sobre o cinema? Um verdadeiro absurdo. A filosofia não é feita para refletir sobre qualquer coisa. Ao tratar a filosofia como uma capacidade de “refletir-sobre”, parece que lhe damos muito, mas na verdade lhe retiramos tudo. Isso porque ninguém precisa da filosofia para refletir. As únicas pessoas capazes de refletir efetivamente sobre o cinema são os cineastas, ou os críticos de cinema, ou então aqueles que gostam de cinema. Essas pessoas não precisam da filosofia para refletir sobre o cinema. A idéia de que os matemáticos precisariam da filosofia para refletir sobre a matemática é uma idéia cômica. Se a filosofia deve servir para refletir sobre algo, ela não teria nenhuma razão para existir. Se a filosofia existe, é porque ela tem seu próprio conteúdo.
Qual é o conteúdo da filosofia?" (Gilles Deleuze, O Ato de Criação).
Criar conceitos."Muito simples: a filosofia é uma disciplina tão criativa, tão
inventiva quanto qualquer outra disciplina, e ela consiste em criar ou inventar conceitos."
Diga-me, agora, a esta altura de sua profunda leitura deste simplório texto: O que Durkheim tem haver com o termo "Sociologia"?
